Sonhos e o Sonhar


... me traga um sonho e vejamos como sua própria natureza reage a isso....


No Egito Antigo havia a certeza de que elos sonhos poderíamos entrar em contato com os mortos e com os deuses, ou seja, tomamos conhecimento de nosso destino.  Há função para o sonho no desenvolvimento psicológico: mensagem única para sujeitos únicos providas do interior de cada sujeito.

Aristóteles (apud KAST, 2010) compreendíamos sonhos como expressão da vida anímica; fenômeno intrapsíquico que poderia indicar como as doenças tomam os corpos. Artemidoro de Daltis (apud KAST, 2010) é considerado precursor na interpretação de sonhos. Constitui interpretações interligando os símbolos dos sonhos com o ser do sonhador, ou seja, sua história de vida e atmosfera do sonho. Ambos afirmam que o sonho pertence atmosfera do próprio sonhador.

Na Era Moderna, Rene Descartes (apud KAST, 2010) nos leva a conclusão de que somos aqueles que sonhamos. No Romantismo o sonho é compreendido em contraposição ao predomínio do racional no mundo; algo que transpõe a existência do indivíduo e o conecta com a infinitude - ideia retomada por Jung através do conceito de inconsciente coletivo.

Além de ser único mundo que constituímos, o sonho significa que portamos nossas próprias possibilidades de cura e abrigamos nossa criatividade. Por meio dos sonhos somos informamos sobre o que vai mal em nossa psique e sobre o que devemos saber mais sobre nós. Os sonhos esclarecem os reais indicadores do caminho de vida. A imaginação é o veneno curativo. Umas das tarefas do trabalho com sonhos é fazer tropeçar repetidamente a nossa consciência para nos mover de posições fixas, uma tortura para a consciência habitual.

Jung (2007) define que o sonho retrata a situação interna do sonhador, com a qual a consciência reluta em aceitar. Quanto mais o sonhador reprime seus sentimentos quanto ao sonho, mais o ouvinte sente as emoções reprimidas. Nos sonhos estão as saídas criativas, (as tentativas de assimilar coisas ainda não digeridas), para a neurose.

"[...] a função dos sonhos é fazer fluir a vida novamente, passar da estagnação, que atualmente podemos relacionar com o problema da falta de sentido, da depressão e do tédio, outra vez para a correnteza da vida, o que envolve interesse, experiência de sentido é um olhar voltado para frente. (...) estimulam os processos de imaginação, despertam representações, que possuem uma dinâmica própria e são capazes de pôr ideias enrijecidas em movimento. Sonhos produzem efeitos." 
(KAST, 2010, pág.53)

O sonho lembrado é o ponto de contato  da consciência com o substrato do inconsciente. A capacidade de lembrar dos sonhos pode ser relacionada com aquilo que o inconsciente prefere recalcar ou nos oferecer, assim como com o desejo do analisando se confrontar com a própria expressão onírica. Constituem parte vital da vida da psique: pensamentos em imagens primordiais. Logo, são manifestações do Self. Gallbach (2000) conclui que a linguagem do sonho é precisa apesar de  constituir sentido paradoxal e lógica metafórica, afetiva, figurativa. O sonho une consciente e inconsciente na expressão por símbolos.

A cada sonho o analisando abre ao analista um mundo inteiro dentro do si mesmo. O analista precisa ter coragem de acreditar em sua própria interpretação no interesse do paciente ciente de que o inconsciente, por estar interessado no nosso destino, é capaz de corrigir erros. Há vários níveis de interpretação. A urgência de tornar-se o que é (processo de individuação) é invencível.
O trabalho com sonhos privilegia as funções pensamento, intuição e sentimento em detrimento a função sensação. Quando se propõe a Imaginação Ativa, agregamos a experiência sensível.

Fonte:
BOSNAK, Robert. Breve curso sobre sonhos: técnica junguiana para trabalhar com os sonhos. São Paulo: Paulus, 1994.
GALLBACH, Marion R. São Paulo: Paulus, 2000.
JUNG, C.G. Sobre sonhos e transformações. Petrópolis: Vozes, 2014.
JUNG, C.G. Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferência. Petrópolis: Vozes, 2007.
JUNG, C.G. Seminários sobre análises de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014.
KAST, Verena. Sonhos: a linguagem enigmática do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2010.

Comentários

  1. Interessante o artigo, parabéns! Sempre me interessei por sonhos e adoro escutá-los também!

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    1. Raquel, é bem interessante o modo como os sonhos compõem o processo de psicoterapia. Ideias, imagens e símbolos.

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