Psicoterapia como processo: a Análise Pessoal





O processo de criação do universo começa do caos, da escuridão ou do mar infinito. Tais locais são moradia da serpente colossal que contém em seu corpo a energia criativa. A serpente do mundo está incubada no ovo cósmico [vide lenda grega de Ófion], que em ato de criação racha e dá início ao processo que envolve gerações de deuses. O processo de criação é repetido sem descanso: é trabalho de criar cosmos e divindades. A criação do ser humano é deliberada pelo trabalho das deusas e deuses.
O trabalho do analista consiste em despertar aquilo que já existe dentro da pessoa. É a arte de despertar o sujeito para seu potencial criativo genuíno. A finalidade não é curar, e sim favorecer o crescimento interior por meio das dificuldades pessoais.
No decorrer do trabalho analítico há a proposição de que pelo falar, pelo escutar e pelo fazer criativo nos confrontamos com nós próprios. Pôr-se em processo analítico é possibilitar o existir permeável a outros saberes. É despertar para o próprio caminho de vida como processo natural com sentido, finalidade e objetivo; é a experiência interior.
A experiência interior se torna experiência de vida quando vivida com todas as suas implicações. O analisando, no decorrer do processo, adquire maturidade e acesso maior ao sentido da própria realidade interior. A análise trata do que podemos dizer do que pensamos.
O confronto analítico consigo mesmo põe à prova nosso poder de expor dores, publicitar feridas e colocar a si mesmo em questão. Por ‘poder’ compreende-se tanto a capacidade pessoal, como a necessidade e o potencial para lidar com as consequências de se colocar em questão frente ao outro e a si mesmo.

 “... ninguém é obrigado a ir além do que pode” (Jung, volume XVI/1, 1971)

A psique se expressa nos sintomas e distúrbios. A doença pode ser pensada como destino e não apenar como consequente a estilos de vida irresponsáveis e evitáveis. Há uma vida em curso cuja psicodinâmica do que não está recebendo a devida atenção na situação atual se expressa por patologia.  O que se perdeu faria parte da autorregulação. O sintoma emerge como portal para o amadurecimento e empoderamento a partir de nosso sofrimento.
No contexto de aceleração e economização, sob a pressão do tempo, é fácil perder o vínculo com os próprios sentimentos, com o corpo, com a psique, com os próximos e com o mundo. O amadurecimento precisa de tempo. A processo de tomada de decisão requere tempo. A interrupção do fluxo de vida requer tempo; tudo precisa de tempo estar em homeostase.  Requer tempo(s) [Cronos, Kairos, Aion], e interlocuções.
A experiência interior toma sentido quando mediada pela relação com o outro. O percurso em busca da completude se dá nas interlocuções, no pôr-se em contato com o si-mesmo e em relação com o outro. Revelar-se ao analista é revelar-se a si mesmo, dar voz às próprias qualidades, dons, exigências, maturidade, vocação.
O nosso papel na sociedade é exibido pelas exigências do si-mesmo, de forma que a nossa própria natureza individual nos guia ao lugar que melhor podemos viver nossa própria natureza para o bem-estar da sociedade.


“O homem só passa a ser responsável e capaz de agir, quando existe a seu modo” (Ibid)

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