Neurocognition early experience and development lab

Boletim | Maio/2016 |


Neurocientistas demonstram efeitos significativos do nível socioeconômico (NSE) no desenvolvimento da linguagem, memória e funções executivas e na estrutura cerebral (Brito & Noble, 2014). No entanto, ainda existem questões em aberto no estudo dessas relações: 1) quais sistemas cerebrais estão implicados estrutural e funcionalmente?; 2) timing - quando podem ser detectados os efeitos das disparidades de NSE no desenvolvimento?; e 3) como as diferentes experiências e exposições ao ambiente podem explicar essas diferenças? (Noble & Farah, 2013).

Procurando responder a essas perguntas, estudos vem sendo realizados pela Dra. Kimberly G Noble e seu grupo de pesquisa em parceria com outros profissionais de diferentes universidades dos EUA. O Neurocognition Early Experience and Development Lab – NEED lab, coordenado pela Dra. Noble, é um centro de estudos da Columbia University em Nova Iorque, especializado em pesquisar como experiências precoces impactam no desenvolvimento funcional e estrutural do cérebro das crianças. O NEED lab é um dos laboratórios de referência no estudo dessa temática, com diversas publicações de forte impacto para a comunidade científica (disponíveis no site do laboratório). As pesquisas realizadas pelo NEED lab associam medidas do ambiente familiar (principalmente NSE, psicopatologia dos pais, estresse, ambiente linguístico), medidas de funcionamento e estrutura cerebral (MRI, fMRI, EEG), medidas fisiológicas (cortisol capilar) e genéticas e tarefas comportamentais que avaliam o desempenho cognitivo.
Retomando as questões de pesquisa do grupo, em termos da primeira (consequências neurais), foi previamente relatado que os efeitos do NSE na estrutura do cérebro se estendem a regiões pré-frontais importantes para a autorregulação e atenção (Noble, Korgaonkar, Grieve & Brikman, 2013), bem como hipocampo, amígdala e regiões importantes para o desenvolvimento da linguagem como o giro fusiforme, giro frontal médio e giro frontal inferior esquerdo (Noble et al., 2012, 2015). Nos estudos mais recentes, tem sido verificado que o NSE está relacionado à espessura do córtex (cortical thickness), à área da superfície cortical (cortical surface area) e à velocidade com que essas estruturas se desenvolvem (Noble et al., 2015; PiccoloMerz et al, under review). Foi observado que há um processo de diminuição da espessura cortical acelerada em crianças e adolescentes de baixo NSE. Esse processo de “afinamento” é normal e esperado. Entretanto, a aceleração desse processo tem se mostrado prejudicial, tendo em vista que as crianças de ambientes menos favorecidos apresentam desempenho cognitivo inferior em relação as de NSE mais alto. A explicação para esse fenômeno ainda é uma questão em aberto, mas tem sido hipotetizado que possa estar relacionado à alteração dos mecanismos de resposta ao estresse em consequência das privações e desafios de ambientes desfavorecidos. Um estudo em andamento busca ampliar os resultados prévios, investigando impactos do ambiente socioeconômico familiar e do estresse nas estruturas cerebrais utilizando MRI e nas funções cerebrais, por meio de tarefas neuropsicológicas.
Sobre a segunda questão (tempo), Brito e colaboradores (in press) não encontraram diferenças na atividade cerebral de recém-nascidos relacionadas a NSE, mas já foram evidenciadas bem cedo na infância. Recentemente, pesquisadores observaram disparidades de desempenho em linguagem e memória relacionadas ao NSE em crianças de até 15 meses (Noble et al., 2015) e um papel significativo do ambiente doméstico já pode ser percebido aos 9 meses (Melvin et al., 2016). Buscando mais evidências sobre o timing dos efeitos socioeconômicos no desenvolvimento, atualmente está sendo desenvolvida uma pesquisa que examinará de que maneira as primeiras experiências infantis, aspectos do NSE e o estresse parental se relacionam com o desempenho em linguagem e memória e desenvolvimento do cérebro (EEG) em bebês aos 6, 9 e 12 meses de idade.
Por fim, em relação à terceira questão (mecanismos), os estudos realizados no grupo de pesquisa indicam que a capacidade de autorregulação parece moderar os efeitos da pobreza na infância no desempenho em memória operacional e funções executivas (Ursache & Noble, 2016; Ursache, Noble, & Blair, 2015). Um estudo que está sendo desenvolvido pelo NEED lab (Melvin, Piccolo & Noble, in preparation) indica que o estresse parental é um mediador na relação entre NSE e ambiente linguístico familiar e do desenvolvimento de habilidades de linguagem em crianças. Recentemente, foi publicado um artigo que reporta os efeitos do ambiente linguístico familiar - tanto a quantidade de palavras às quais a criança é exposta quanto às medidas de responsividade dos pais - na habilidade das crianças em discriminar fonemas (Melvin et al., 2016).
Os estudos do grupo buscam fornecer bases para medidas intervencionistas e estudos de intervenção estão em andamento. Um deles merece destaque por seu pioneirismo e inovação. Pela primeira vez, conexões causais entre a redução da pobreza e o desenvolvimento do cérebro em crianças desde o seu nascimento serão testadas. Resumidamente, famílias receberão, randomicamente, cartões de débito ainda na maternidade. Um grupo receberá $333 por mês e outro, $20 mensais. Estudos socioeconômicos prévios já demonstraram que $333 podem melhorar significativamente em muitos aspectos a qualidade de vida de famílias americanas que vivem em situação de pobreza. As famílias serão avaliadas periodicamente em relação ao ambiente linguístico, estresse parental e desenvolvimento cognitivo das crianças, entre outros fatores. Nesse momento, um estudo piloto avaliou a viabilidade do projeto e apresentou resultados preliminares empolgantes, com relatos de famílias que já sentem diferenças em seu dia-a-dia graças ao suporte financeiro que estão recebendo.
No Brasil, os estudos na temática têm se concentrado primordialmente na investigação da relação entre NSE e desempenho em tarefas cognitivas. Nesse sentido, o meu pós-doutorado no grupo de pesquisa americano tem sido essencial para a aquisição de conhecimento técnico e teórico em ferramentas pioneiras e de alta tecnologia para avaliar como os fatores do ambiente moderam o desenvolvimento cerebral e cognitivo e quais fatores são mediadores dessa relação. O entendimento dos mecanismos subjacentes aos efeitos do NSE sobre o desenvolvimento neurocognitivo pode embasar ações de intervenção ou prevenção de dificuldades cognitivas daqueles que vivem em condições de pobreza no Brasil.
 Todas as referências citadas nesse texto podem ser encontradas no website do grupo:http://www.columbia.edu/cu/needlab/index.html e atualizações sobre pesquisas, projetos e reportagens podem ser acompanhadas no  facebook: https://www.facebook.com/NEED-Lab-665115496901100/?fref=ts ou twitter: @NEEDLabColumbia

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dificuldades encontradas pelo professor em sua prática docente

Fundamentos da Psicologia Analítica: Primeira Conferência