MEUS HÉROIS MORRERÃO DE OVERDOSE?



Quem viu a cara da morte nunca mais volta igual. Eu mudei completamente. Eu tive no CTI para morrer e não morri, eu tô aqui. [...].É como um gozo, shot de heroína, é um prazer total a morte. Eu mudei em coisas paupáveis, é claro que meu hálito continua o mesmo. O medo de morrer é um medo básico mas não é que eu não tenha medo de morrer, é que eu gosto tanto de estar vivo que é um desperdício eu morrer. Uma coisa é certa: morrer não dói. É uma coisa que eu passei, eu tive perto dela, e não é ruim, é prazeiroso. (CAZUZA, 1989, 3:54 min – 4:51 min, in: http://www.youtube.com/watch?v=wMgbD3 JVZ8M)

A morte se dá não só com Cazuza mas com todos que, tal qual ele, almejam ser tudo, na condição de ídolo, na representação de nada em pleno palco. A busca do tudo é o estado maniaco e o nada não é o que esta na base deste estado revelando o sujeito. A toxicomania e a dependência de drogas são formas buscadas comumente pelos artistas para lidar com o abismo melancólico que os assombra.
[...] se o melancólico é aquele que, vítima de uma ausência enigmática, se diz culpado, o toxicômano, colocando em causa a droga, encontra um objeto para erigir na realidade, não somente para afirmar a culpa, mas provavelmente para se livrar dela por [...] uma conduta de autodestruição ou pela tristeza depressiva que podemos entender aqui como uma pena, um castigo e sofrimento. (ESCANDE. In: PIMENTA et al, 2011, p.263)
Os elos infantis de dependência, reproduzidos compulsivamente por adestramento na toxicomania, precisam morrer para que se dê espaço a autoconsciência. Tornar-se indivíduo significa percorrer vários estágios de consciência de si mesmo, no quais o conflito induz á não permanência na imaturidade e ao combate as forças originais que o escravizam em comunhão com as drogas enquanto aquilo que não mata mas ajuda a viver. A medida que transpomos estes estágios, surgem sentimentos de culpa e de ansiedade materializando a oposição entre a parte do eu que quer evoluir e a parte do eu que opta por permanecer imatura ou na compulsão por consumo de narcóticos.
Ingold, no artigo O estado de Dependência, descreve com clareza as possíveis analogias entre a cegueira visionária do drogado e o apaixonar-se por si mesmo de Narciso, “a Narcose de Narciso [...] representa [...] a situação de dependência do viciado” (In: OLIEVENSTEIN, 1983, p. 67).
O toxicômano desperta o fascínio naqueles que temem a lei, o que faz dele um herói, nas palavras de Melman (1992). O fascínio é suscitado pelo caráter transgressor, que revela uma pretensa falta de temor à castração, pois é precisamente em busca da lei que o toxicômano dirige os seus atos. Com isso, não é o valor material do objeto que importa, mas a sua condição de ser raptado ou violado, o que configura a delinquência como uma reivindicação do objeto do qual foi privado, seja como um meio de resgatá-lo de forma subversiva, seja como vingança por algo tão essencial ter-lhe sido negado. Ao apreender um objeto que mascara a falta, o sujeito revela que conserva a ilusão de completude narcísica. Dessa forma, as toxicomanias assinalam para uma tentativa de manter-se apartado da rivalidade sexual, evitando o encontro com a falta. (VIANNA, 2011, p.6)
O mito de Narciso viabiliza reflexões acerca da dependência expressa no desejo social pela existência do ídolo, sendo-o ou projetando-se em quem o é. A completude narcísica inferida ao sujeito é posta em cena no mascarar o objeto da falta pela adicção, “a imagem no espelho é tal que o sujeito se vê e sua imagem o olha” (INGOLD, 1983, p.67) tal como Narciso as margens do lago. Narciso mira  as águas do lago, de profundidade inconsciente, mas só vê o Eu refletido de si mesmo. Narciso e os heróis da overdose contemporânea se aproximam ao buscarem uma imagem de si que mesmo enquanto máscara ideal é tomada como real. “Narciso é um reflexo que contempla sua ausência” (Ibid., 1983, p.68), e tal como Cazuza não quer ser ‘o tímido’ e alcooliza-se para fazer-se ‘o célebre’ e acreditar na máscara que o possui quando embriagado. Ambos encontram a fonte de água fresca, debruçam-se para bebê-la e “ enquanto bebe, enamorado de sua imagem, que percebe na água, apaixona-se por uma ilusão sem corpo; toma por corpo o que nada mais é senão água; extasia-se diante de si” (Ibid., 1983, p.68).
Questiono-me se o ídolo contemporâneo esta fadado ao fim trágico? Esta na condição social simbólica do ser ídolo associar-se a drogadictos, tornar-se toxicômano ou dependente de drogas, ciclar entre mania e melancolia, e projetar na morte seu ideal de vida? A romântica ideia do mártiri é perpétua?
O mito de Narciso indica algumas possíveis respostas. O ídolo contemporâneo vivencia simbólicamente a trajetória de Narciso, ao buscarem frescor para suas vidas medíocres encontram nas drogadicções o ocupante concreto de faltas objetais fantasiado no desejo por ser célebre. Enebriam-se com alucinógenos, estimuladores e depressores como drogas que ocasionarão paixão pelo sujeito que se percebem após o consumo.
O uso abusivo de entorpecentes pode levá-lo a overdose, que esta sendo buscada  como comprovação de que “esse corpo, que agora se apresenta como seu [...] que o limite da tolerância imposto à insaciável ansiedade tóxica é facilmente transgredível sem que isso acarrete consequências perigosas” (KALINA et al In: Mansilha,2006, p.14). Intoxicados, apaixonam-se pela ilusão do que aparentam ser; no entanto, não há corpo real e passada a mania terão consciência de que a melancolia ainda os habita. Acredito que é essa paixão fulminante que arrebata o artista e sua platéia e, que a toxidade deste enamoramento faz com que se romantize a viver do usuário de drogas que externaliza o produto de seu processo criativo.  Ingold (1983, p.69) nos diz que:
 O êxtase de Narciso é a captura de seu olhar, a captura definitiva que o deixa deslumbrado, cego: sua imagem só tem olhos para ele, e ele próprio desapareceu do outro lado do espelho, de onde só se pode contemplar uma ausência cega – a sua – no mundo.
A perda do Eu inscreve-se na paixão tóxica de um sujeito cuja imagem é apenas um reflexo olhado por si mesmo e por sua platéia. Em verdade, quando retirada de cena as projeções, nem Narciso tampouco o artista dependente de drogas se reconhecem e encontram o verdadeiro objeto externo de amor: o expectro de si mesmo. O Eu se perde “nas águas turvadas das lamentações” (INGOLD, 1983, p.69), não reconhece nem real nem ideal; “o viciado e Narciso vivem ao ritmo do universo deslocando-se para o interior do tempo” (Ibid., 1983, 71) e ambos existem, somente, enquanto paixões fulminantes. Num corpo preenchido pela droga, a overdose opera no momento em, apesar da criatividade inata pulsando, o não reconhecer-se e o perder-se são imperativos. Os heróis que morreram de overdose deixaram as flores desabrochadas nas águas de suas vidas para que os reles mortais também provém um pouco da genialidade criativa do transpor fronteiras da moralidade social.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dificuldades encontradas pelo professor em sua prática docente

Fundamentos da Psicologia Analítica: Primeira Conferência