Idades Finais

As projeções estatísticas acerca do crescimento da população de idosos tem se cumprido como acontecimento mundial. Em território nacional já é perceptível, estatistica e cotidianamente, o aumento da população idosa. De acordo com os dados obtidos no Censo 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de faixa etária entre 65 e mais de 100 anos é de 13.479.480 milhões – sendo 7.403.178 milhões de mulheres e 6.076.302 milhões de homens. 


Os estudos demográficos sobre envelhecimento afirmam, freqüentemente,que as disparidades entre os sexos são importantes: as mulheres constituem a maior parte da população mundial idosa. No processo do envelhecimento
feminino, os dados mostram que, em 1980, havia em escala mundial, três homens de 65 anos e mais para cada quatro mulheres, relação que se mostra ainda mais forte nos países desenvolvidos, em razão do grande número de homens mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns estudos mostram que quanto mais a idade aumenta, mais as mulheres são numerosas; o envelhecimento passa a ser um fenômeno que se conjuga,
antes de tudo, no feminino. (PEIXOTO in FIGUEIREDO et all. 2007, p.423)
O crescimento da população idosa na atualidade é foco de debates em muitos países. O Brasil, tomado nos anos 90 como um país de jovens, passa a perceber a crescente demanda por bem estar social incitadas pelo envelhecimento populacional em fins do século XX. Esta dinâmica de ampliação dos índice de longevidade desperta, segundo FREIRE (apud FALCONE et alli. 2006, p.229), a atenção de pesquisadores em “questões ligadas à qualidade de vida na terceira idade”.
A problematização contemporânea do conceito de qualidade de vida é fruto de uma sociedade nanotecnológica cujas necessidades primevas de existência foram saciadas; e, como resultante há a longevidade enquanto indutora para pensarmos um viver qualitativo. O Grupo de Qualidade de Vida da Organização Mundial de Saúde (OMS), citado por  FLERCK (in FALCONE et alli. 2006, p.229), define qualidade de vida como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. A qualidade de vida do idoso tem sido relacionada, de acordo com SANTOS, COSTA SANTOS, FERNANDES e HENRIQUES (in FALCONE et alli. 2006, p.230), com “capacidade funcional, estado emocional, interação social, atividade intelectual e autoproteção de saúde”.
[...] além de termos uma significativa população de jovens – totalmente carente de serviços, sem escolas e com muitos dos problemas médico-sanitários ainda não resolvidos -, a demanda por serviços qualificados para idosos também é muito grande. (VERAS. 1995, p.137)
Neste contexto, é publicado o Estatuto do Idoso (lei nº 10.741 de 1 outubro de 2003), com objetivo de  regular todos os direitos assegurados à pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos: direito à vida, à liberdade, à dignidade, ao respeito, dos alimentos, à saúde, educação, cultura, esporte, lazer, profissionalização, à Previdência Social, assistência social, à habitação, ao transporte público, à medidas específicas de proteção, e acesso à justiça.
Em 1950, a população brasileira era de cinquenta milhões de habitantes. Para 2005, projeta-se 250 milhões – número cinco vezes maior, em um período de 75 anos. Entre os idosos, no mesmo período iremos passar de 2,1 milhões para 32 milhões – número 15 vezes maior. Estes dados são ainda mais expressivos quando se compara com o crescimento de idosos em outros países. No mesmo período, Estados Unidos, Japão e China terão suas taxas de idosos ampliando-se apenas 3,5, 5 e 6,5 vezes. Isto mostra que o crescimento do número de idosos no país será muito rápido e que, portanto, grandes linhas de políticas sociais previdenciárias e de saúde precisam ser urgentemente estabelecidas. (VERAS. 1995, p.142)
Considerando o Estatuto do Idoso, inclui-se a faixa etária de 60 a 64 anos como idoso, no entanto a aposentadoria, que segundo a previdência social brasileira se dá entre 65 e 70 anos, é um marco real de entrada na ‘velhice’. E, de acordo com o IBGE há, nesta faixa etária, 3.468.985 milhões de mulheres e 3.041.034 milhões de homens, num total de 19.988.599 milhões de idosos no Brasil recenciados no Censo Demográfico de 2010.
Neste contexto demográfico e social é inerente a oscilação classificatória,  conforme destaca PEIXOTO (in BARROS. 2007, p.70),  entre “o estigma e a compaixão e os termos: velho, velhote, idoso, terceira idade ” sobretudo porque ao traçarmos uma trajetória dos conceitos e noções vinculados ao envelhecimento nas representações sociais brasileiras constatamos que o aumento dos acima de 60 anos tornou-se um problema social pois até então eram as estruturas familiares que arcavam com o custo de seus idosos. Desde o século X, na Europa, a família “é o primeiro refúgio em que o indivíduo ameaçado se protege durante os períodos de enfraquecimento do Estado. Mas assim que as intituições políticas lhe oferecem garantias suficientes, ele se esquiva da opressão da família e os laços de sangue se afrouxam” (DUBY in ARIÈS. 2011, p.145).
Nos meios mais ricos, a família se confundia com a prosperidade do patrimônio, a honra do nome. A família quase não existia sentimentalmente entre os pobres, e quandohavia riqueza e ambição, o sentimento se inspirava no mesmo sentimento provocado pelas antigas relações de linhagem. (ARIÈS. 2011, p. 159)
Na modernidade mundial, emergem as aposentadorias nos sistemas de Previdência Social pública ou privada como instituição política de fomento a velhice do trabalhador.  Nesta sociedade, “a família protetora é substituída cada vez mais pelo grupo social ou pelo Estado protetor, não apenas nos fatos, mas também nas atitudes. Onde, na sociedade tradicional, o indivíduo teria se voltado para família, ele se volta, legitimamente para o Estado” (STOETZEL in BARROS. 2007, p.70).
A representação social da pessoa idosa esteve a merce de uma série de transformações ao longo do tempo, uma vez que a posição moral deveria transpor-se á ética “as mudanças sociais reclamavam políticas sociais para velhice, políticas essas que pressionavam pela criação de categorias classificatórias adaptadas à nova condição moral, assim como a construção ética do velho” (PEIXOTO in BARROS. 2007, p. 70). A mesma autora afirma que “ as mudanças da imagem da velhice chegam as terras brasileiras no final da década de 60 [...] recuperando a noção de idoso” na esfera ética e impulsionando um pensamento da multiplicidade nesta faixa etária. E, assim, o termo ‘velho’ passa a conotar negativamente pessoas de mais idade das classes populares, ou seja, volta a denotar aquilo que queremos caracterizar como antiguado e absoleto; para as pessoas com traços de envelhecimento passa-se a utilizar o termo idoso.
O conceito de idoso, classicamente, é muito fechado no sentido de sua plasticidade antropológica, do seu devir; já a expressão terceira idade resgata um pouco esse ser idoso do esquisamento a que tem sido submetido há gerações. [...] A categoria terceira idade não discrimina nem aprisiona a pessoa idosa, mas, ao contrário, permite uma leitura de suas potencialidades. Ela ganha outras dimensões enquanto problema social, redefinindo a velhice e o processo de envelhecimento. É uma invenção oriunda das relações capital-trabalho; agencia novos atores, práticas e territórios existencias; dinamiza conteúdos, formaliza e cria condições de possibilidade, resgata representações antes desprezadas e desqualificadas; enfim ém um problema social e sujeito/ objeto de um processo de conhecimento: a gerontologia. (SOBRAL in VERAS. 1995, p.146-147)
Inicialmente, o termo Terceira Idade surge como representação da velhice bem sucedido frente as demandas de criação de um sistema de proteção à velhice e que a longevidade impulsiona a um “alargamento das faixas de idade mais jovens e, assim, a criação de novas denominações: a quinta idade (pessoas com mais de 85 anos) já sobrevoa o céu francês, enquanto a quarta idade cairá em breve sobre as terras brasileiras” (PEIXOTO in BARROS. 2007, p.83).
Lénoir analisa essa invenção, á terceira idade [...]. Invenção capitalista, para discutir e justificar uma nova gestão da vida dos velhos trabalhadores, os sem-herança ou patrimônio, na fase final da ‘inutilidade’. Sem demora, a classificação s estenderia a classe média. (BARROS. 2007, p.227)
BEAUVOIR (1970, p. 5), afirma ser a velhice “aquilo que acontece as pessoas que se tornam velhas: é impossível encerrar esta pluralidade de experiência num conceito ou numa noção” em consonância com SOBRAL (in VERAS. 1995, p.146) ao ressaltar que Terceira Idade é uma categoria  que heuristicamente problematiza as diversas aproximações com a fase de aposentadoria: retração social, possibilidade de mais atividades de lazer, aproximação familiar, reinvindicação de direitos e participação na sociedade. O termo Terceira Idade, de acordo com Sobral (in VERAS. p.147), pressupõe multidimensionalidade do processo de envelhecer, no qual as etapas do viver são novamente referenciadas como construção social em busca pela promoção da saúde e do bem estar coletivo.   
 [...] a expectativa de vida amplia-se com rapidez e não é incomum nos dias atuais encontrar pessoas com vinte anos ou mais de sobrevida na categoria dos idosos, especialmente nos segmentos sociais de maior poder aquisitivo. (VERAS. 1995, p.136)
O crescimento da população de Terceira Idade provoca debates em vários âmbitos da sociedade, já que não é um grupo etário homogêneo mas autônomo e independente demandando cuidados, serviços e atendimentos de melhor qualidade.
A velhice é associda, em geral, a modificações no corpo, sendo as principais o aparecimento de cabelos brancos e rugas, o andar mais lento, a postura encurvada, a redução da capacidade auditiva e visual.
Tudo isso é visível e contribui para a associação entre velhice e feiúra. O ideal estético é erigido sobre um corpo jovem; o velho é feio. (BARRETO. 1992, p.26)
O corpo, conforme GUATARI (in FARIA. 1996, p. 96), esta sujeito a subjetividade fabricada  e modelada nos registros sociais construidos na relação sujeito-mundo. Segundo GUTARI e KOLNIK (idem. p.97) é na “subjetividade capitalística, onde os indivíduos são fabricados, modelados e lhe são injetadas representações, como parte do processo de produção subjetiva”. O corpo é fruto da temporalidade, e tal como descreve FOUCAULT (ibdem. p.97), é local de instalação de forças dominantes: representações que podem ser fabricadas e modeladas de acordo com os interesses politícos e ideológicos de cada época. E, é “em uma sociedade capitalista, na qual o produtivo é que vale, quando o velho se percebe ‘uma experiência encostada, um braço aposentado, uma cabeça desocupada’ mais do que marginalizado, ele se vê expulso da vida” (ALBERNAZ in BARRETO. 1992, p.8).
Na descrição da velhice, quando se abandona sua exterioridade – o corpo – e se busca sua interioridade, o que se encontra de mais forte é o sentimento de solidão. [...] Na velhice, a solidão, pesa. Não é apenas um sentimento, é um estado, uma maneira de ser – a maneira solitária de ‘ser velho’ em nossa sociedade. (BARRETO. 1992, p.30)
Pensando o corpo como representação das demandas neoliberais absorvidas pelo indivíduo e acrescido de que, conforme explicíta MAGALHÃES (in FARIAS. 1996, p. 47), ao “aumento da população idosa não correspondeu uma estruturação para sua integração” e tampouco que foram pensadas políticas públicas de longo prazo frente as expectativas de reabilitação, saúde, bem estar, ampliação das relações interpessoais, estética, rejuvenescimento, e longevidade, ponderamos que negligências fomentam a depressão e desejo de morte na Terceira Idade. E, frente a “fragilidade, a auto-imagem do velho fica bastante comprometida. Problemas psicológicos, principalmente a depressão, estão ligados a este declinio nas funções gerais do organismo e as mudanças na beleza e na forma do corpo” (BARRETO. 1992, p.26). O corpo envelhecido só existe no contexto social que o produz e modela, e suas representações são determinadas por influencias da divisão de classes, do mercado de consumo e do poder aquisitivo dos indivíduos pois o “corpo burguês é bonito, bem cuidado, recebe todo tipo de cuidado, tanto mais próxima a velhice. Há uma indústria da juventude montada” (BARRETO. 1992, p.27).
No entanto, marginalizado e expulso o idoso não chama a si mesmo de oprimido (é deprimido que se torna), por não encontrar fora de si o seu contrário, a quem pudesse chamar opressor: como a velhice já habita o jovem, o jovem que ele foi permanece no velho que hoje é, na atemporalidade de percepção do ‘eu’. (BARRETO. 1992, p. 8)
BARRETO (1992, p.63), aponta haver na ideologia econômica dominante contemporâneamente um temor do ‘poder do velho’, ou seja, teme-se que “as singularidades da vivência do velho apontem a falência do projeto de vida que ela defende, justifica e vende”. No artigo Novos Fatos e Alguns Pontos de Vista Sobre Terceira Idade, VERAS afirma que o aumento da expectativa de vida tem impactado diretamente, além do sistema público de saúde e de transporte, a Previdência Social pois “a parcela produtiva está praticamente estabilizada e, portanto, o montante de recursos para manter os idosos não vai aumentar” (1995, p.139). Ao que LUZ (1995), também neste artigo, contrapõe ao ressaltar a importância de não lesar os direitos adquiridos constitucionalmente em favor de imediatismo do neoliberalismo; a repentina perda dos laços sociais decorrente da “relação com o trabalho ao aposentar-se; com seus próximos que morrem ou se afastam; com seus ideais que requerem algum remanejamento. A brusca retirada de laços sociais que ligam o idoso à comunidade humana pode produzir conseqüências em sua vida” (CASTILHO. 2005, p.3) e estas necessidades devem ser priorizadas.
No Brasil, o aposentado em geral (não as exceções) é um vencedor. Ele conseguiu sobreviver, trabalhando, a um regime social e econômico profundamente desigual e injusto do ponto de vista social. Penalizá-lo por esta vitória seria um último gesto de escárnio do sistema que o oprimiu durante sua vida produtiva. (LUZ in VERAS. 1995, p.143)    
Há uma suposta sobrecarga no sistema de saúde ocasionada pela população idosa brasileira ao demandar elevado investimento em tecnologia complexa e em equipes multidisciplinares na promoção de saúde e autocuidado; pois, “prover serviços e equipamentos sociais aos idosos implica criar uma teia de relações que vão de serviços a domicílio até intervenções diretas nos espaços públicos dos mais variados matizes” (SOBRAL in VERAS. 1995, p.142). Os problemas de saúde na Terceira Idade, em geral, requerem tratamentos de longa duração, equipes e equipamentos de alto custo. O Brasil tem adotado um modelo de saúde pública fundamentada na prevenção, na promoção do autocuidado, no autoexame e na vigilância prévia dos fatores de risco à doenças crônicas. O reconhecimento da natureza multifatorial da saúde introduz problematizações sobre qualidade de vida e estilos de vida saudáveis, nos guiando a ciência de que a concretização das concepções de saúde ligadas à noção de cidadania e de qualidade de vida para o idoso significam a recuperação de sua autonomia; e, de acordo com KERRINSON (in FARIA. 1996, p.28), a  “independência fisíca é encarada como fator essencial para preservar a autonomia de idosos” bem como é notório que as habilidade provenientes da interação social  são determinantes da qualidade de vida na mesma proporção em que “as deficiências em habilidades sociais parecem constituir um fator de vulnerabilidade para a baixa qualidade de vida e para a depressão em indivíduos da terceira idade” (FALCONE et alli. 2006, p.236).
Morrer prematuramente ou envelhecer: não existe outra alternativa. Todavia, como escreveu Goethe: “A idade se apodera de nós de surpresa”. Cada qual se constitui para si próprio o único sujeito e nós nos expantamos, muitas vezes quando o destino comum passa a ser também o nosso: doença, ruptura e luto.
[...] a velhice é um destino, e nos deixa estupefados quando se apodera de nossa própria vida. (BEAUVOIR. 1970, p.7)

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