Mediação dispensável



Pensando o tutor como mediador pedagógico em EAD, a experiência docente no modalidade presencial é indício de sucesso nas intervenções junto à postura pedagógica peculiar (gestão de conhecimento e de relação interpessoal nos ambientes de aprendizagem) e proficiência tecnológica.
O mediador pedagógico precisa lidar ao mesmo tempo com a gestão do conhecimento de sua turma, acompanhar e participar proativamente das discussões com sua coordenação, manusear com desenvoltura o AVA escolhido pela instituição, gerenciar possíveis conflitos explícitos e implícitos no calor das discussões e no desenrolar dos trabalhos, estimular: a colaboração, a interatividade (SILVA, 2001), o clima cordial e estimulante. São várias as ações que este ator precisa contemplar. (NOBRE & MELO. p.3)

O paradigma que fundamenta esta postura do profissional na modalidade presencial e a distância é o da trasmissão daquele que detém o saber aqueles que o absorverão do mestre. Neste contexto o mediador é responsável pela aprendizagem do aluno e pelo sucesso formal do curso. O mediador pedagógico é engessadamente o elo entre discentes e professor-autor, mídias, coordenação e demais cursistas. Ele se cre, e é institucionalmente chamado a assim atuar, como ponte entre o aprendiz e aprendizagem; e, consequentemente deve também investir-se de ética, responsabilidade, honradez, empatia e cordialidade no ato de orientar aprendizagens.
O saber se faz através de uma superação constante. O saber superado já é uma ignorância. Todo saber humano tem em si o testemunho do novo saber que já anuncia. Todo saber traz consigo sua própria superação. Portanto,  não há saber sem ignorância absoluta: há somente uma relativização do saber ou da ignorância.
Por isso, não podemos nos colocar na posição do ser superior que ensina um grupo de ignorantes, mas sim na posição humilde daquele que comunica um saber relativo a outros que possuem outro saber relativo. (FREIRE. p.29, 1998)
A meu ver o paradigma da transmissão em si mesmo pressupõe sujeito ativo (aquele que transmite/ docente ou tutor) e sujeitos passivos (aqueles que captam/ discente ou cursistas), NOBRE & MELO (2011) afirmam que a mediação pedagógica ‘respeita e considera o seu aluno como um sujeito corresponsável e ativo da aprendizagem’ (p.4), sendo assim desenvolvidas, junto ao comprometimento com o trabalho, ‘competências e habilidades essenciais ao mediador pedagógico da EAD’ (p.5).
[...]o fato de não haver maior destaque para as competências de ordem acadêmica, gerencial, pedagógica e tecnológica não quer dizer que não são relevantes para o mediador. Acreditamos que a adesão às competências afetivas se deve à especificidade da
modalidade e ao fato dos cursistas que estão ingressando em um curso na modalidade EAD precisarem de maior acompanhamento do mediador até que conquistem maior autonomia. As competências afetivas do mediador neste sentido são essenciais. As demais competências se aproximam do senso comum quase como uma obviedade às funções educativas. (NOBRE & MELO. p.13)

Neste contexto, ressaltando a trasmissão de saber do tutor  e a corresponsabilidade do aluno por si mesmo, os profissionais de educação independente da modalidade a ser veiculado o conteúdo devem manifestar competências adaptativas ao mercado de trabalho neoliberal:
Ø    Disponibilidade – o trabalho foca a produtividade em detrimento as limitações de carga horária dispostas nos estatutos trabalhistas. A veiculação tecnologia amplia a desfronteirização de tempo e espaço pessoal e laboral; tudo pode ser feito a todo tempo.
Ø    Competência gerencial- como característica de acumular função e desempenha-las com sucesso e concomitantemente.
Ø    Intigar o debate – problematização limitada aos assuntos e paradigmas postulados no material do curso. Criticas com outras referências são ignoradas ou distorcidas como fuga do assunto central.
Ø    Sugestão de bibliografias – deveria haver espaço formal para que alunos e tutores sugerissem bibliografias que agregassem novos fundamentos aos conceitos problematizados, não a perpetuação de ideiais hegemônicos.
Ø    Impulso a cocriação – é importante que espaços de aprendizagem contenham espaços de subversão aos paradigmas hegemonicos, que se permita a critiva construtiva e a ampliação de modos de ver o saber. Os alunos deveriam ser responsaveis e ativos em seu processo de aprendizagem, e não corresponsáveis por absorver ideiais hegemônicos.
[...] a real preocupação dos autores com o exercício do mediador. Em alguns modelos, ele possui maior autonomia e participação no repensar do curso, já em outros, o mediador apenas implementa o já concebido. Mas em todos os modelos analisados, vimos que há preocupação com a formação contínua destes profissionais e que ele é um dos principais responsáveis pela aprendizagem e autonomia do aluno.(NOBRE & MELO. p.13)

Conforme pontuado por NOBRE & MELO (2011) a superação das adversidades em educação é processual e tornada possível pela constante formação profissional destes formadores e educadores que se propõem a aprender, a se reconhecerem como seres em construção, a permitirem-se admitir como ignorantes em processo de formação cognitiva, emocional e cultural. Responsabilizando-se ativamente por aprender, transgredindo a absorção cognitiva, indo além dos mais do mesmo, evoluímos. E, de acordo com postulados do educador brasileiro Paulo Freire é este humanizar-se na relação com o saber que torna possível a construção significativa de conhecimento.
Paulo Freire é um pensador comprometido com a vida: não pensa idéias, pensa existência. É também educador: existencia seu pensamento numa pedagogia em que o esforço totalizador da ‘praxis’ humana busca, na interioridade desta, retotalizar-se como ‘pratica da liberdade’. Em sociedades cuja dinâmica estrutural conduz à dominação de consciências, ‘a pedagogia dominante é a pedagogia das classes dominantes’. Os métodos da opressão não podem, contraditoriamente, servir à libertação do oprimido. Nessas sociedades governadas pelos interesses de grupos, classes e nações dominantes, a ‘educação como prática da liberdade’ postula, necesariamente, ‘uma pedagogia do oprimido’. Não pedagogia para ele, mas dele. Os caminhos da liberação são os do oprimido que se libera: ele não é coisa que se resgata, é sujeito que se deve autoconfigurar responsavelmente. (FIORI in FREIRE. p.3, 1980)


Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 8ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
______ Educação e Mudança. 22ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
PERRENOUD, Philippe. 10 Novas Competências para Ensinar.” Porto Alegre: Artmed Editora, 2000.

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