Deus e o Diabo na Suécia Tropical

- expurgando a autoalienação no trabalho –



O patriotismo é o último refúgio do canalha.

(Johnson. Carta Capital)



A desordem social, por nós vivenciada na contemporâneidade, impõe falsas certezas acerca da inalterabilidade determinista da estrutura capitalista. Apesar de permanecermos sob o domínio ideológico do capital, imersos nos anseios de perpetuação da sociedade de mercadorias e suas efemeridades, por meio da educação crítica e consciente podemos transceder o engessamento atual.

Neste contexto destaco duas premissas importantes para refletirmos e mudarmos o desinteresse pessoal, por questões políticas e sociais, impostas na fase atual do capitalismo: a alienação emerge como consequente a sujeição do desenvolvimento cultural aos interesses da expansão do capital e a maximização de lucros; e, ciclicamente, a autoalienação tem reproduzido as práticas educacionais dominantes de viés capitalista.

É inquestionável que o ideal educacional orienta e enriquece humanamente os indivíduos ao longo de suas vidas, mas também pode ser promotor da desorientação e do empobrecimento coletivo. Nosso sistema de educação sobrevive em mutualismo com a ordem estabelecida, e sobrevive como reprodutor legítimo e acrítico da mesma.

Vivenciamos a primazia de uma tendência econômica que induz-nos a alienação para garantir a perpetuação da escravidão assalariada1 e preservar a crença na inquestionabilidade dos valores do capital. A inaterabilidade desta falsa ‘ordem natural’, cujos indivíduos sujeitam-se a ideologia econômica dominante, ocorre autoexpansivamente e por meio da doutrinação constante  dos sujeitos passivos aos ditames da ordem hegemônica.

Ao pensarmos criticamente sobre os ideais educacionais e o ponto de vista do capital percebemos a incompatilidade estrutural entre ambos. Os ideiais educacionais como legitimadores da estética e da moral coletiva não podem, coerentemente, associar-se a segregadora ordem social hegemônica sem degradar a doutrinação capitalista. A educação é seminal na incitação de transformações da sociedade geridas por criticidade coletiva. Ela destina-se á indivíduos coletivos1 e questionadores do metabolismo alienante do capital; certamente a fruição desta educação atrelada a mudanças conscientes, inferirão em problematizações das determinações estruturas vitais a sociedade.

As estruturas vitais da sociedade do capital, imersa na delinquência e na criminalidade acentuados pela alienação, tornam-se palpáveis nos apelos do propagandismo de valores de cidadania e de legislações situacionais – ambos pontualmente  veiculados pelas mídias e sem alterar a estrutura vital capitalista. Em evitação a sintomática social, ao aprofundar e ao problematizar dos fatos em si num dado contexto, nega-se haver algo de errado na tal estrutura e afirma-se serem necessárias apenas reformas superficiais.

Devemos, no entanto, ter clareza de que a reformulação crítica dos valores sociais e morais somente são incitáveis nos indivíduos mediante a consciência da situação histórica e social concreta e impulsionadora de transformação coletiva. As práticas sociais são inseparáveis da pro-atividez de questionamento em relação á mudanças na ordem hegemônica. E, a educação, articulada com intervenções conscientes, efetiva o processo de transformação social e promove, de fato e de direito, a relação dual entre indivíduos sociais1 e a sociedade. A educação problematizadora promove a emancipação de sujeitos que são ativos em seus meios sociais.

Os soberbos imperativos do tempo do capital1, usurpadores da emancipação humana, empobrecem o tempo de vida de indivíduos particulares que renegam articulações com a coletividade. É um processo de desumanização que obriga indivíduos a, no tempo alienante do sistema, submeterem-se ao trabalho dito necessário. Ao nos submetermos aos imperativos do tempo do capital empobrecemos nosso tempo real de vida. E, como inidivíduos trabalhadores alienamo-nos ao longo de toda a vida; degradamo-nos como meros trabalhadores subfuncionais. Parasitamos na existência em si. Imersos na compulsão econômica subordinamo-nos a estrutura da ordem social estabelecida e viabilizamos a destruição produtiva1 ou produção destrutiva1.

A adoção consciente, autonôma e criativa do tempo disponível é concretizar uma mudança qualitativa. E, apenas, indivíduos dialogicamente sociais podem determinar com consciência o melhor uso de seu próprio tempo disponível, do número de horas e a intensidade de trabalho em tarefa produtiva relevante, bem como a participação real nos variados níveis de decisão. Instauramos um sistema de cooperação crítica e consciente com indivíduos empoderados de seus papéis na sociedade. Porém,  tenhamos ciência de que é inviável desprendermo-nos das dicotomias do capitalismo sem exercermos a autonomia crítica e nos empoderarmos de nossos papéis sociais na promoção de uma conjuntura crítica da história humana.        

A cultura da desigualdade, ainda muito enraizada em nossa sociedade, pode ser extinguida pela prática dialógica de transformações em que os profissionais de educação não apenas se atenham a mudanças locais mas empoderem-se da posição de educadores e de educados. Os educadores devem ser educados para construir articulações críticas entre a lógica do capital e as necessidades emancipadoras de transformação social. Viabilizemos a processualidade das transformações resultantes do questionamento coletivo da ordem hegemônica; depreciemos as ocasionais concessões up-down gerida na Suécia Tropical2. Façamos bom uso do daimon3 criativo ao nos empoderarmos do indivíduo coletivo em nós. Fragmentemos a autoalienação em ojeriza aqueles deputados brasileiros que autodivinizam-se na prática política e proclamam:

 - Gozarei 15 dias de recesso em julho porque sou filho de Deus!

A luz produz sombra. A mesma luz que torna um objeto visível cria sua sombra. Empoderemo-nos do daimon3, e dentre iluminados por Deus e sombreados pelo Diabo dissolvamos a Suécia Tropical2 no labor consciente, critativo e qualitativo!

                                   # 29 de julho de 2012#




1 conceito de Izstván Mészáros.

2 conceito de Mangabeira Unger.

3 conceito de Carl Gustav Jung.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dificuldades encontradas pelo professor em sua prática docente

Fundamentos da Psicologia Analítica: Primeira Conferência