Resignificações do Século XXI


Diante da inevitabilidade da morte, junto a manifestações de nossas capacidades mentais racionais e emotivas, vida e morte enfrentam-se em nossas mentes. Na tentativa de minimizar o confronto do homem com a morte foram criadas inúmeras manifestações culturais: rituais, celebrações, cultos, rezas danças, cânticos, e encenações dramáticas. Um fim físico requer um ritual como enaltecimento do respeito e honra a tudo que fora construído na vida findada, e estes rituais têm como objetivo ajudar os vivos a conscientizarem-se da morte, a auxiliar o morto em sua entrada e permanência no mundo dos mortos. No entanto, esses aspectos têm sido resignificados desde a segunda metade do século XX.
O desenvolvimento técnico-científico imposto á vida moderna tem amortizado a relação do homem com a morte. Já não temos mais tempo para a morte e para o morrer, e nem o queremos. A ideia de juventude eterna torna-se cada vez mais concreta. A sociedade brasileira, no contexto da cultura ocidental, está possuída pela promessa de juventude eterna, distanciada do envelhecimento e da preparação para a morte. Vivemos um momento de imersão em promessas de liberdade e domínio das forças da natureza. A morte biológica, como manifestação de força da natureza no ciclo da vida, é uma ameaça aos fundamentos do mundo contemporâneo. A medicina moderna tem nos auxiliado na desconstrução da visibilidade da morte por ocupar seus pacientes com prescrições e proscrições prolongadoras da vida saudável. A medicina tem como função impedir que a morte se dê concretamente, e não cogita a possibilidade de perder esse embate; multiplicam-se mecanismos desnecessários de prolongamento artificial e frívolo da vida nos centros de terapia intensiva – longe do caloroso convívio familiar.

A desvalorização da morte ritualística, fruto da cultura contemporânea dissociada, baseia-se na razão e na biotecnologia para propriciar o distanciamento do homem dos movimentos naturais de transformação e do confronto com a morte.

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