Educações

A educação é uma prática essencialmente humana, cabendo-lhe transcender a ritualização pedagógica e considerar a amplitude de sua influência na existência do ser humano. Institucionalizada nas escolas, a educação tem sido instrumento social lapidado por interesses capitalistas ao reproduzir a ideologia e as relações de produção típicas deste sistema econômico.
A sociedade e suas divergências são reproduzidas, em menor escala, nas instituições educativas. Há, tanto na sociedade quanto nas unidades escolares, sujeitos postos a margem e estigmatizados por inadequarem-se aos padrões normatizados pelo senso comum.
A escola é uma instituição normativa e formadora de indivíduos socialmente adaptáveis ao meio social padronizado pelo senso comum. Quando ocorre algum dano a no processo de socialização, fundamentado em fragilidades subjetivas a cada sujeito, cabe a escola rever seus processos e práticas intrumentalizando-os em favor do desenvolvimento do indivíduo.
A atualização da relação entre a escola e a sociedade não deve apenas ser fruto de determinações do processo de desenvolvimento econômico capitalista, mas atentar para especificidades dos diferentes sujeitos em seus contextos nas dimensões subjetivas, políticas, históricas e culturais.
As dificuldade de aprendizagem tendem a ser minimizadas por aqueles que estão direta ou indiretamente envolvidos com a questão educacional. Geralmente, o fracasso escolar é justificado por fatores externos, sem a devida percepção de que isso pode ser um „sintoma‟ que deve ser investigado para além das perspectivas pedagógicas.
É tarefa enriquecedora da prática pedagógica que a escola repense seus enlaces com a sociedade. Ao dimensionar criticamente as possíveis intervenções da escola na sociedade, o fracasso escolar emerge como ferida humana a ser restaurada pela prática pedagógica em interação com outros campos de saber, tal como, a meu ver, a psicologia. Certa de que, conforme Jung (2003.p.118), o “mundo é imenso e não há uma única teoria que consiga explicar tudo”.
Atualmente, a escola têm um acúmulo de responsabilidades em vários âmbitos. Como instituição determinada governamentalmente a substituir o papel da família, cada vez mais ausente, infere na orientação, cuidados psicológicos e biológicos, assistência social, dentre outras funções mais, e sua real função de „formar‟ esta relegada a último plano e atrelada a progressão quantitativa de índices avaliativos. A escola tem priorizado demagogias governamentais em detrimento as suas verdadeiras finallidades, renegando sua importãncia insubtituível.
A escola é o primeiro ambiente infantil fora da família, por isso tem papel essencial no processo de desenvolvimento da consciência individual. É o local onde se dão as primeiras descobertas que diferem os núcleos familiares. No ambiente escolar, cada qual aprende a conviver buscando semelhanças e interagindo diferenças.
A escola, porém, é a primeira parte do grande mundo real, ela procura ir ao encontro da crinaça para ajudá-la a desprender-se, até certo ponto, do ambiente da casa paterna. (JUNG, 1999.p. 60)
Quando a criança entre na escola ainda é apenas um produto dos pais, não sendo capaz de afirmar especificidades de sua própria personalidade. Neste momento começa a descoberta de que há muito mais possibilidades do que o que era ofertado pelos pais, convivem curiosidade e estranhamento diante da nova realidade.
A criança tem uma psique extremamente influenciável e dependente, que se movimenta por completo no âmbito nebuloso da psique dos pais, da qual só relativamente tarde consegue libertar-se. (JUNG, 1999.p. 54)
As dificuldades manifesta no comportamento discente nas salas de aula se explicam ao examinarmos o ambiente doméstico e o relacionamento psíquico dos pais. A família, participavativa ou não na criação dos filhos, é referência para crianças e pré-adolescentes. Pois, de acordo com Fierz (1997.p.67), a “maneira como a pessoa se organiza depende da sua constituição pessoal, bem como da tipologia herdada de seus antepassados.”
Por diversas vezes, professores indignados com determinadas postura dos alunos convocam seus pais a irem a escola para buscarem juntos novos caminhos e soluções, e são surpreendidos com a postura dos pais que explica a problemática da
criança. Estes pais não atentam, conforme escreve Sandford (2007.p.75), ao fato de que só temos capacidade de fazer uma escolha livre quando somos pessoas psicologicamente conscientes.”, bem como, segundo Jung (in VON FRANZ, 1999. p.317), é prioritário que “somente a ação do homem sobre o homem é capaz de realizar uma verdadeira transformação”. Muitos pais prosseguem não cientes do quanto suas atitudes e pensamentos influenciam seus filhos, e nem sempre esta influência é benéfica.
A criança tem uma psicologia particular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos esclarece de pronto por que muitas das neurores infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. (JUNG, 1999.p. 80)
As consequentes dificuldades e possíveis problemas relacionados à aprendizagem revelam-se como sinais que alertam os profissionais envolvidos no processo escolar, bem como a família e o próprio educando, no sentido de que alguma coisa não está funcionando bem no sistema escolar, refletindo, no aluno, as consequências da não-aprendizagem. Pelo fracasso ou pelo êxito temos no ambiente escolar indivíduos que se revelam a sociedade por meio do processos quwe vivenciam.
O sujeito é portador das próprias convicções e estas se desvelam ao divergir ou compactuar com os padrões de progresso acesseveís nos meios sociais com os quais interage.
Um dos meios mais viáveis para promoção de mudanças na educação é a reflexão crítica acerca dos processos educacionais. Para este fim os escritos de C.G. Jung permanecem pertinentes à caracterização da Educação Contemporânea Brasileira. Segundo pressupostos da Teoria Analítica, a Educação é distinguida em três tipos interativos:
Ø Educação por meio do exemplo
Por este viés destaca-se que a vida dos pais fundamenta a vida dos filhos, pois a psique infantil se funde com a psique dos pais.
Os métodos e experiências no campo da educação dependem e dependerão daqueles que as conduzem; pais e mestres devem educar, antes, a si mesmos. Sendo de suma importância, conforme escreveu Jung (1999.p.59), que “o
professor esteja consciente desse seu papel. Sua tarefa não consiste apenas em meter na cabeça das crianças certa quantidade de ensinamentos, mas também influir sobre as crianças, em favor de sua personalidade total” pois, “ a verdadeira educação psíquica, que só pode ser transmitida pela personalidade do professor.”(1999.p. 60). Este deve permanecer ciente de que a “educação do próprio professor, porém, reverterá indiretamente em benefício das crianças”. 1999.p. 61)

Ø Educação Coletiva
São as normas coletivas que orquestram a interação dos indivíduos em sociedade, pois, de acordo com Jung (1999.p.155), a educação insconsciente pelo exemplo se fundamenta em uma das propriedades primitivas da psique.
A educação coletiva é indispensável e não pode ser substituída por nenhuma outra coisa. Vivemos na coletividade humana e precisamos de normas coletivas, do mesmo modo que devemos ter uma linguagem comum. (JUNG, 1999.p. 156)
Destaca-se entretanto, que a valorização excessiva de regras, princípios e métodos atravanca os desenvolvimento de individualidades apesar da ciencia de que, segundo Von Franz (1999.p.101), o “homem moderno foi alienado de si mesmo pela manipulação da sociedade e vive num estado de constante frustração, oque explica sua destrutividade.”
Certo e errado são normatizações humanas para favorecer a convivência e não para deviar as pessoas de seu próprio destino, massificando-as em padrões do senso comum. Permitir que o outro experimente a si prórpio, entre em contato consigo mesmo, é a real efetivação do processo educacional e de individuação.
[...] ele deve entrar em contato direto com seus semelhantes com toda a ainiciativa, sofrimento e alegria que isso implica. É preciso que novamente encontre um jeito de expor-se aos mais difíceis desafios. Ele tem de ser sacudido. O senil „eu sei‟ „eu sei‟ deve trans formar-se no socrático „eu não sei‟. (VON FRANZ, 1999. p.137)
Ø Educação Individual
 A meta do processo educativo na escola é o desenvolvimento que promova a maturidade de personalidades individuais, unindo valores individuais e coletivos, e enaltecendo a socialização entre referenciais diferenciados. Neste âmbito, segundo Jung (1999.p.60), “o que importa não é o grau de saber com que a criança termina a escola, mas se a escola conseguiu ou não libertar o jovem ser humano de sua identidade com a família e torná-lo consciente de si próprio”.
O homem tem necessidade de uma sociedade mais ampla do que a família, em cujo círculo, demasiado estreito e constrigente, acaba definhando espiritual e moralmente. Se alguém estiver demasiadamente apaegado aos pais, simplesmente transmitirá à família que fundar o mesmo tipo de ligação, no caso de conseguir fundar uma família; deste modo criará para seus filhos um ambiente psíquico tão lastimável como o que ele prórprio talvez tenho tido. (JUNG, 1999. p. 90)
A escola deve agir como facilitadora da individuação, enaltecento as ações reflexivas e conscientes do indivíduo, para que ele desperte a própria personalidade pois, conforme Jung (1999.p.157), o que se pretende é o desenvolvimento da “índole específica do indivíduo”.
Neste contexto é importante que pensemos criticamente o papel do professor no processo de ensino, para que, como fora escrito por Guggenbuhl (2007.p.97) não ocorra que o professor fica cada vez mais sabido e os alunos cada vez mais ignorantes”. Em meio as relações de poder e saber, o professor como profissional que visa promover o desenvolvimento humano pode causar enormes danos ao indíviduo. O desejo de ajudar pode refletir um lodo sombrio: desejo de poder.
Na ânsia do próprio desejo de ajudar, o professor deixa de ponderar as necessidades do outro e age em favor dos próprios anseios fazendo com que, segundo Guggenbuhl (2007.p.97), o “seu contato com as crianças se dá por intermédio do poder e da disciplina”. Alguns proffisinais da educação tomam seus valores como únicos e definitivos, priorizam atitudes autoritárias para „formar‟ seus alunos ao lhes transmitim saberes estaques e inquestionáveis.
O educador deve sempre ter em mente que pouco adianta falar e dar ordens; o importante é o exemplo. Se o educador admite no tocante a si mesmo, de modo inconsciente, toda a espécie de inconveniências, mentiras e maus modos, pode estar certo de que tudo isso terá um efeito incomparavelmente maior do que todas as boas intenções que demostra com tanta cerimônia. (...). O próprio educador dever ter sido educado antes e ter experimentado em si mesmo se são eficientes ou não as verdades psicológicas que aprendeu em sua escola. Na medida em que o educador persistir nesse esforço com certa dose de inteligência e de paciência, é provável que não seja mau educador. (JUNG, 1999. p.137)
O educador, para progressivo desenvolver de suas funções, deve compreender especificidades de seus alunos, dons e dificuldades. Essa compreensão consite no conhecimento das condições de vida familiar e desenvolvimento psíquico de seus alunos e de que, conforme Stein (2006.p.154), “para cada etapa da vida existem constelações de instintos e arquétipo, as quais resultam em padrões de comportamento, sentimento e pensamento”.
Embora pareça óbvio que, em uma sociedade democrática, a finalidade da educação deva estar vinculada ao crescimento individual. A não-aprendizagem, em nossa cultura, é excessivamente desvalorizada e a maturação biológica do ser humano é um fator que deve também ser considerado no trato das aquisições cognitivas porque pode imprimir ao sintoma escolar uma irreversibilidade orgânica, tendo como provável resposta a marginalidade do sujeito em seu meio.
Neste contexto, o objetivo da educação deveria centrar-se em desenvolver a consciência social em conjunto com a singularidade do indíviduo, bem como promover a integração desses fatores. Porém, na realidade, os programas de ensino desconsideram a singularidade psíquica dos indivíduos e, assim, tornam-se inúteis ou nocivos.
A educação do adulto só estará completa quando ele aprender a viver completamente o curso de sua prórpia vida de acordo com as leis da natureza. (SILVEIRA, 2003.p.159)
Na primeira metade da vida, o principal projeto consiste em desenvolver o ego e a persona até ser atingido o ponto de viabilidade individual, adaptação cutltural e responsabilidade adulta pela criação dos filhos.
(STEIN, Murray.O surgimento do si mesmo (individuação) in: Jung: o mapa da alma.p.156)
Referências
FIERZ, H. K. Psiquiatria Junguiana. São Paulo: Paulus, 1997.
GUGGENBUHL- CRAIG, Adolf. O Abuso de Poder na Psicoterapia. São Paulo: Paulus, 2007.
JUNG, C.G. O Desenvolvimento da Personalidade. 7ª edição. Petrópolis: RJ: Vozes, 1999.
__________ Fundamentos da Psicologia Analítica. 11ª edição. Petrópolis: RJ:Vozes,
2003.
VON FRANZ, M-L. Psicoterapia. 2ª edição. São Paulo: Paulus, 1999.
SANFORD, John A. Os parceiros invisíveis. 10ª edição. São Paulo; Paulus, 2007.
SILVEIRA, Nise. Jung. Vida e obra. 19ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
STEIN, Murray. Jung: o mapa da alma. 5ª edição. São Paulo: Cultrix, 2006.

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