Dificuldades encontradas pelo professor em sua prática docente

A educação é uma prática essencialmente humana, cabendo-lhe transcender a ritualização pedagógica e considerar a amplitude de sua influência na existência do ser humano. Institucionalizada nas escolas, a educação tem sido instrumento social lapidado por interesses capitalistas ao reproduzir a ideologia e as relações de produção típicas deste sistema econômico. 
A sociedade e suas divergências são reproduzidas, em menor escala, nas instituições educativas. Há, tanto na sociedade, quanto nas unidades escolares, sujeitos postos a margem e estigmatizados por inadequarem-se aos padrões normatizados pelo senso comum.
A escola é uma instituição normativa e formadora de indivíduos socialmente adaptáveis ao meio social padronizado pelo senso comum. Quando ocorre algum dano a no processo de socialização, fundamentado em fragilidades subjetivas a cada sujeito, cabe a escola rever seus processos e práticas intrumentalizando-os em favor do desenvolvimento do indivíduo.
A atualização da relação entre a escola e a sociedade não deve apenas ser fruto de determinações do processo de desenvolvimento econômico capitalista, mas atentar para especificidades dos diferentes sujeitos em seus contextos nas dimensões subjetivas, políticas, históricas e culturais. Pensando acerca dos grandes mestres do passado remoto e daqueles que permanecem como forte inspiração a prática docente, posso afirmar que no decorrer de minha vida como aprendiz é notório ser a maior realização do professor a certeza de compartilhar seus saberes e acessar novos conhecimentos na interação com os alunos. Bem como, ter a certeza de que forma indireta, ou mesmo direta, afeta o desenvolvimento, o crescimento e a sede por conhecimento de inúmeros grupos. Como docentes, mestres da fala, do ato e da vida como exemplo, temos um grande poder nas mãos. Cada palavra pronunciada, cada ato posto em voga, pode tanto incentivar um aluno, como destituir com seus anseios.
 
Os professores trilham os rumos planejados no processo de ensino-aprendizagem  certos de ser determinante convencer os alunos de que aquilo que está sendo transmitido contribuirá positivamente ao sucesso de suas vidas. E que a recusa por enxergar as contribuições disponibilizadas pelos professores irá fechar-lhe as oportunidades antes mesmo de compreender seu sentido.
A tentativa de estabelecer um ambiente de empatia, instigando os alunos a participar das aulas e a criação de condições e estratégias a laços de amizade com os alunos favorece discussões, pois os mesmos sentem-se estimulados a trazer suas próprias experiências para as aulas. Na maioria das salas de aula, até que professor rogue por participação e incite a crítica, poucos são aqueles que o fazem espontaneamente.
A preocupação dos alunos atualmente centra-se nas incertezas do  amanhã. E como adultos não temos mais uma resposta convincente as suas problemáticas pessoais. A individualização de acesso a informações pelos alunos não depende mais somente dos livros nem dos professores, pois tanto alunos como os professores, com acesso a internet, tem a seu dispor informações inúmeras e imediatas. A acessibilidade de informações por parte dos alunos, muitas vezes, prejudica o aprendizado, na medida que há pouca criticidade acerca do que é lido bem como certificação da vericidade das informações reproduzidas. O papel do professor, hoje, é de ser mais orientador, ou seja, um guia para ajudar os alunos não se perderem nas quantidades inumanas de informações existentes no mundo de hoje. Como profissional de educação, creio ser importante criar relações claras entre a disciplina lecionada e suas inferências na vida cotidiana. Criando relações diretas entre conhecimento teórico e a prática cotidiana torna-se viavél a interação real do aluno sociedade em favor da realização de seus objetivos pessoais e coletivos.
A partir do momento em que se compreende ser a escola instrumento de formação para a vida real, começa a compreensão de que a participação crítica é positiva para o aprendizado escolar e nas demais esferas sociais. A participação dos alunos é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento. Por mais que um professor instigue, sem alunos curiosos não há construção de conhecimento, e algumas vezes nem mesmo a mera transmissão do saber. A participação em sala de aula deve ser incentivada constantemente pois a falta de conhecimento viabiliza a alienação, e como docentes, temos que instigar a formação de uma sociedade forte, crítica e consciente.
Expectativas do professor quanto à inteligência do aluno
A viabilização de ambiente instigador a múltiplas inteligências tornam os planejamentos mais complexos. Com objetivo de desenvolver as inteligências diferentes nos alunos há de se diponibilizar uma série de estratégias e atividades que permitam a cada qual expor suas potencialidades sem por em detrimentos as não potencialidades. Um planejamento instigante é de grande ajuda na sala de aula, tanto aos educadores quando aos educandos.  
O professor deve estar atento aos grupos de interesse dominante e comunicar-se pedagogicamente com todos os grupos pertencentes a sala de aula. Destaco a importância de que as potencialidades sejam um facilitador da aprendizagem, mas que não sejam continuamente o único caminho disponibilizado pois desafios são necessários. Comunicar-se pedagogicamente para toda a turma é mais um desafio do professor, certo de ser necessário trasncender a tendência a lecionar para os grupos dominantes nas salas e buscar instigar e saciar a multiplicidade de sujeitos vulneráveis ao processo de ensino-aprendizagem. Se ansiamos por uma sociedade ativa e crítica temos que estudantes com a mesma postura diante dos saberes que lhes são disponibilizados.
Cabe, a meu ver, ao professor a tensão de orientar seus alunos no processo de descoberta de suas potencialidades e habilidades, bem como ajudá-los, efetivamente, na descoberta e no desenvolvimento das mesmas pelos alunos.

Comunicação entre professor e alunos
O discurso do professor nas salas de aula é forte instrumento de poder e intervenção no ideário coletivo. Devemos ter ciência e responsabilidade quanto a este recurso, buscando criar ambientes propícios a construção de saberes críticos, e não somente perpetuar a transmissão dogmática. Creio que a comunicação pedagógica tende a se inclinar a favor dos interesses de grupos dominantes e a produzir desvalorização em várias instâncias aos grupos subordinados. Tendemos a adotar o discurso das maiorias e do senso comum, e mesmo quando estamos atentos em favor de um discurso crítico e consciente há uma indução por meio de materiais cujo currículo oculto perpassa ideais de desvalorização dos ditos grupos subordinados. O currículo oculto transmite diretamente estereotipias de uma  sociedade por meio da definição de comportamento, estrutura, organização, forma de viver, e é nesse meandro que os papéis são definidos, bem como as ideologias transgridem subliminarmente possíveis criticas.
Nas salas de aula, em todos os níveis da educação nacional, há  a divisão entre os dominantes e os subordinados. Há aqueles que nunca emitem uma opinião, e preferem acatar o que a maioria diz, mesmo que sejam totalmente contra. Esses normalmente foram moldados no decorrer de suas vidas escolares a passividade da transmissão/recepção de saberes inquestionáveis por mestres indisponíveis e temerosos do diálogo.  
A interação com os educandos direcionada ao trabalho coerente de fomentar-lhes o senso científico não pode pressupor fórmulas prontas, e sim ponderar as habilidades emocionais e cognitivas de cada ser pensante. A relação aluno-professor é gratificante quando atenta às individualidades e potencialidades de todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, e direciona-se a problematização conhecimentos na dinâmica de construção e reconstrução. O professor é provocador daqueles que se premitem ser provocados, e também tomam partido fundamentando as próprias provocações. Deste modo o conhecimento será constituido paulatinamente na esfera da criticidade de cada sujeito presente as salas de aula.

Interação entre os participantes
O processo de aprendizagem se concretiza quando as todas partes pertencentes ao processo interagem em equilíbrio. Professores cientes de suas funções transcendem a mera transmissão de conhecimento, e de exercitam a proatividade e polivalentia: entender de psicologia, para conseguir compreender o grupo, e suas necessidades; precisam ser líderes, para motivar a equipe; pais, pois sabem a hora de chamar a atenção quando necessário; holísticos, para tentar abarcar a complexidade humana. Com essa maestria, ou rumo a ela, o professor, mesmo assim, corre o risco de não conseguir realizar o que é propriedade de seu trabalho: o ensino.
As técnicas de ensino são de fundamental importância, porém não se sustentam se não houver interação dos envolvidos. O professor colhe gratificantemente os frutos de seu trabalho quando problematiza a realidade, e induz a  reflexão. A admiração discente é enaltecida quando o professor lhes conduz por novos rumos e pensamentos, e lhes mostram pontos de vista nunca antes percebido por eles. Porém, não basta que  somente o professor seja  instigador, é fundamental a reciprocidade por parte do aluno para que a troca de informações seja efetiva.

Habilidades cognitivas
Há diversos fatores que interferem no processo de aprendizagem, além do fato de a inteligência não ser única. Segundo Bloom, a cognição decorre de habilidades hierarquizadas pelo grau de complexidade de seu processamento. O conhecimento é tomado como o nível mais primário progredindo para compreensão, aplicação, análise, síntese e a avaliação como nível mais complexo. Cada qual destes níveis têm habilidades especificas de conhecimento a eles relacionadas.
Já de acordo com Howard Gardner pressupor a inteligência humana como de cognição única é questionável. Crendo, o mesmo autor, haver oito distintos tipos de manifestação da inteligência: inteligência linguística, inteligência interpessoal, inteligência intrapessoal, inteligência naturalista, inteligência lógico-matemática, inteligência vísuo-espacial, inteligência corpo-cinéstica e inteligência musical. 
No panorama da educação nacional, a maioria dos currículos prioriza atividades que requeiram a mobilização das inteligências lógico-matemática e linguística. Ao tomar estas inteligências como prioritárias as demais inteligências são, consequentemente, menosprezadas nas instâncias acadêmicas. Apesar das dificuldades e empecilhos que possam haver, é importante que nas salas de aula haja a preocupação de todos aqueles envolvidos, direta ou indiretamente, com o processo de ensino-aprendizagem prezando com a valoração de múltiplas inteligências. Os profissionais de educação precisam reconhecer e estimular subjetividades de seus alunos favorecendo o processo de desenvolvimento em suas unicidades.
Atentar as múltiplas inteligências é uma complexa tarefa designada principalmente aos professores nas salas de aula. Quantos de nós manifestamos imediato terror as aulas de matemática (algo que se tornou quase que um fator cultural) e tantos outros sentem-se poucos confortáveis com a enfase nas teorias linguísticas, enquanto outras áreas de aprendizagem são menosprezadas nas grades curriculares.
Ao atuar como facilitadores da interação entre fatores externos e habilidades individuais, os professores viabillizam a organização da transmissão de conhecimento pelo mapeamento das condições dos alunos; ao conhecer previamente as habilidades preponderantes em seus alunos, o professor desempenhará suas funções com maior eficiência profissional no estabelecer e efetivar das metas no processo de ensino-aprendizagem.
Habilidades afetivas
Bloom também hierarquiza habilidades referentes a afetividade atentando para critérios que graduam a complexidade de interação entre o eu e o outro. A afetividade decorre de habilidades hierarquizadas segundo o grau de complexidade de interação do eu com o outro. Nesta escala de tipos de habilidades afetivas, a receptividade é  o nível primário que gradualmente complexifica-se em resposta, valorização, organização e complexo de valores. E a cada um dos tipos há habilidades específicas relacionadas.
As habilidades afetivas precisam ser fortemente trabalhadas em sala de aula pelos profissionais de educação, conscientes do quando o desenvolvimento das habilidades afetivas contribui no aprendizado do aluno. Teoriacamente tende a parecer um processo de simples execução, no entanto, na rotinas das salas de aula, é difícil o professor obter a receptividade, a resposta, a valorização, a organização e a compreensão dos valores de tudo aquele saber que ele tensiona compartilhar.
As relações acadêmicas tendem cada vez mais a engessarem-se em atos mecânicos, e ânsia por saciar requisitos administrativos. Os meandros das relações humanas são postos de lado em função da objetividade e cumprimento de resultados. Esquecemos que é de suma importância atentar para habilidades afetivas, e o processo de desenvolvimento cognitivo deve contemplar aspectos sensíveis para que decorra em plenitude. Ao longo de nossas vidas somos educados cognitivamente quanto a inúmeros conflitos existenciais quase sempre com enfoque objetivo, a educação brasileira não contempla problematizações afetivas. Por exemplo, quando há necessidade de ser trabalhada a problemática de uso  de drogas nas instituições de ensino,  na maioria das vezes, o enfoque é dado somente  numa listagem esteriotipada de certos e errados. Pouco é pensado pela coletividade quanto a esfera humana de sofrimento de um usuário de droga lícita ou ilícita. O mesmo ocorre quando o assunto é sexualidade, os facilitarores engessam suas falas em estereotipias reproduzidas acriticamente por gerações. Lidar com de modo objetivo e exclusivamente racional com temática humanas pouco contribui para que o ser em dificuldade consiga pensar sua vida de modo aproximar seus sentimentos das orientações recebidas.  
As habilidades afetivas podem e devem ser trabalhadas tendo como referenciais o próprio eu do educando e do professor. O profissional de educação atuante nas salas de aula necessita fazer uso, de maneira competente, de suas habilidades sociais para que interação social positiva com os alunos favoreça o processo de ensino e aprendizagem. O memso valor deve ser agregado as habilidades afetivas. Não existe trabalho com frutos gratificantes sem contato interpessoal e a afetividade inerente as relações humanas. Saber ouvir, atentar para o melhor momento de falar ou calar-se para incitar mobilização do grupo quanto a temática em questão, empatia e respeito contribuem enormemente para essa construção contínua do processo educativo. Atento a estes meandros torna-se mais viável a ativa participação discente no próprio processo de aprendizagem, ao  expor suas opiniões, sentimentos e feedback quanto as temáticas de aula.

Conclusão
Os profissionais de educação, com destaque aos diretamente atuantes nas salas de aula, têm fundamental papel a exercer na construção coletiva de saberes. São facilitadores das potencialidades humanas,  e mediam a concretização da  educação como reveladora de sujeitos cidadãos conscientes de suas potencialidades e de suas limitações.
Referências bibliográficas
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