Responsabilidade Social e Ambiental nas Empresas Brasileiras

Em uma tarde de junho de 1998, um grupo de empresários debatia energicamente em um restaurante paulistano. Gesticulavam, pediam apartes, rabiscavam em folhas de papel, alteravam o tom de voz. Quem os via de longe podia pensar que se tratava de uma conspiração.Os personagens desse debate eram os empresários Guilherme leal (Natura*), Sérgio Mindlin (Metal leve*), Eduardo Capobianco (Construcap*), Oded Grajew (Fundação Abrinq*), Hélio Mattar (GE-Dako*), Emerson Kapaz (Elka Plásticos*) e Ricardo Young (Yázigi*). Naquele almoço nascia o instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, já com o desenho de seu primeiro estatuto.

Poucos dias depois, na casa da empresária Maria Cristina Nascimento (Espaço Empresarial Gestão de Serviços*), o projeto do instituto foi apresentado a 40 importantes líderes empresariais, como os representantes das famílias Marinho, das Organizações Globo, e Moreira Salles, do unibanco. O critério para a escolha dos convidados foi o grau de preocupação já demonstrado sobre o papel das empresas na transformação da sociedade. A eles foi apresentada a proposta de criação de uma entidade empenhada em mobilizar as empresas para uma gestão socialmente responsável dos negócios, baseada no diálogo e na construção de consensos, com o objetivode torná-las protagonistas de mudanças sociais. (*) As organizações citadas entre parênteses eram dirigidas pelos respectivos empresários na época da criação do Instituto. (Relatório de Sustentabilidade Instituto Ethos e UniEthos, 2008. p.9)

O Instituto Ethos com a “missão: mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente sustentável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade sustentável e justa(http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/Default.aspx), compreende responsabilidade social como gestão que se define pela relação ética da empresa com investidores e consumidores impulsionando desenvolvimento sustentável da sociedade em favor das gerações atuais e futuras.

Há correlação direta entre desenvolvimento sustentável, atenção as demandas sociais atreladas a gerenciamento ambiental. Contemporâneamente, o conceito de desenvolvimento sustentável compreende ir além do capital local na efetiva melhoria da qualidade de vida e redução das desigualdades sociais.

Se, no início do Ethos, o desafio era difundir o conceito de responsabilidade social no Brasil e sensibilizar os empresários, hoje o cenário é outro. O tema já está bastante conhecido. A ideia de transparência e o compromisso com a sociedade já faz parte do discurso corporativo. Hoje, 435 empresas brasileiras têm ações na Bovespa e, consequentemente, submetem-se aos critérios de governança e de transparência exigidos para a abertura de capital.

Na área social, ações de filantropia são vistas como pouco efetivas para a transformação social. A sustentabilidade – conceito que defende o equilíbrio dos negócios nos desempenhos econômico, social e ambiental – está no discurso da maioria das organizações. (Relatório de Sustentabilidade Instituto Ethos e UniEthos, 2008. p.11)

No atual contexto, em que o novo sistema econômico absorveu as necessidades ambientais, a apropriação coorporativa promoveu a banalização do conceito de desenvolvimento sustentável depreciando a ênfase social e ambiental que lhes são inerentes.

Ouvindo o noticiário da rádio CBN, em 17/01/2012, soube que o grupo EcoRodovias venceu recentemente o processo licitatório realizado pelo governo do Espírito Santo para concessão privada do trecho ES-BA da rodovia federal BR101, e resolvi entender o comprometimento desta empresa com as questões ambientais e sociais; se há restrições, ou não, ao comprometimento sugerido pelo nome fantasia: ECORODOVIA.

                                           Incoêrencias de um Discurso
EcoRodovia autodenomina-se como um dos maiores grupos de infraestrutura e logística intermodal do Brasil, direcionada para garantida de condições estruturais da circulação de bens para o mercado interno.
A Primav Construções e Comércio Ltda, de nome fantasia EcoRodovias, foi criada nos anos finais do década de 90, do século XX, e pertence ao Grupo CR Almeida - empresa bastante atuante no setor de construção pesada e infraestrutura nacional.  A Ecorodovias passou, desde sua criação, a atuar no setor de concessão de rodovias administrando corredores rodoviários de importação, de exportação e eixos turísticos estratégicos no Brasil.
[...] ainda em 1997, [...] o grupo passou a controlar a Ecovia Caminho do Mar, concessionária que administra 176 quilômetros de rodovias entre a capital paranaense e o Porto de Paranaguá. Em 1998, a EcoRodovias conquistou mais duas concessões: a Ecovias dos Imigrantes, que opera a principal ligação da região metropolitana de São Paulo com o Porto de Santos, o Polo Petroquímico de Cubatão e as praias da Baixada Santista; e a Ecosul, concessionária que administra o Polo Rodoviário de Pelotas, no Rio Grande do Sul, acesso ao Porto de Rio Grande e ao litoral gaúcho. (http://www.ecorodovias.com.br/A-Compahia/Historico)
O perfil corporativo do Grupo EcoRodovias o descreve como empresa de capital aberto, atuante no setor de infraestrutura logística integrada, negociante de ações nas Bolsas de valores, e adepta da governança participativa. A empresa está consolidada  no mercado de infraestrutura rodoviária, principalmente quanto a aquisição de concessão administrativa de espaços públicos de grande circulação.  No âmbito das concessões rodoviárias, o grupo têm participação na STP (SemParar/Via Fácil) – reponsável pela viabilização de meios eletrônicos de pagamento do pedágio.
[...] EcoRodovias é uma das principais companhias de infraestrutura logística do Brasil, com cerca de 4 mil colaboradores, cinco concessionárias de rodovias e 17 centros logísticos com atuação em cinco Estados da região sul e sudeste. (http://www.ecorodovias.com.br/A-Compahia/Histori co)
Na descrição de seu perfil corporativo (http://www.ecorodovias.com.br/A-Compahia/Perfil-Corporativo), a empresa declara prezar pela “forma sustentável e socialmente responsável” ao integrar “as empresas com seus valores, práticas de gestão e governança”.
Há no site da empresa uma descrição referencial de diretrizes, visões e filosofia empresarial. Pensando sobre as informações disponibilizadas percebi a existência simultânea de referenciais contraditórios. Afirmando-se atuante no setor de concessões rodoviárias e serviços correlatos e, consequentemente, primar pelo manutenção do transporte rodoviário extensivo, a empresa se distancia da “forma sustentável e socialmente responsável”. Para haver coerência na postura empresarial e responsabilidade social nesta visão de negócio, é essencial que a empresa invista no transporte comercial/turístico ferroviário – de menor custo e impacto ambiental. Asfaltar e manter asfaltado milhares de quilômetros de rodovias, reafirmar a lógica de transporte rodoviário de cargas comerciais em longa distância, investir no que é atualmente lucrativo sem fomentar proativamente ações sustentáveis são impeditivos da postura empresarial focada na responsabilidade social e ambiental. Há, de fato, uma iniciativa privada objetivando lucrar com a gestão de serviços públicos de infraestrutura e apropriar-se, superficilamente, do discurso ecológico.
[...] busca adequar-se às melhores práticas da Governança Corporativa, consolidando em suas empresas as práticas do compartilhamento de controle, valores e ideais, bem como amadurecendo nestas os conceitos e as práticas de sustentabilidade, que não apenas agregam valor, mas são essenciais para o sucesso do negócio.
Na realidade, não é viável que a EcoRodovias tenha como filosofia empresarial efetiva o “respeito ao meio ambiente como um dos pilares do desenvolvimento sustentável” (http://www.ecorodovias.com.br/A-Compahia/Diretrizes-Visao-e-Filosofia) e realize manutenção de asfalto, crie pedágios com valores de restringem a mobilidade humana – além dos incentivos do Estado para viabilizar a concessão privada, no transporte público o valor do pedágio é acrescido no valor das passagens -, estimule o transporte rodoviário, etc. Não há gerenciamento, de fato, de rodovias ecológicas.
Apesar de afirmar-se teoricamente como “trabalhando no fortalecimento de suas ações, para que venham ao encontro das iniciativas globais voluntárias que são comprometidas com o desenvolvimento socioambiental do planeta(http://www.ecorodovias.com.br/ Sustentabilidade/Responsabilidade-Social/Compromissos), a real prioridade e filosofia é a manutenção da “imagem positiva da empresa como garantia de estabilidade do negócio(http://www.ecorodovias.com.br/A-Compahia/Diretrizes-Visao-e-Filosofia). O que há de fato é uma empresa imersa na lógica capitalista apropriando-se das preocupações mundiais com meio ambiente  e buscando colocar-se como ‘ecologicamente correta’ através de ações superficiais no processo produtivo.
Fonte:
Relatório de Sustentabilidade Instituto Ethos e UniEthos 2008 in: http://www1.ethos org.br/EthosWeb/arquivo/0-A24Relatorio%20de%20Sustenta bilidade%20Ethos%20 e%20Uniethos%202008v1.pdf
Acessos em: 18/01/2012

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