Relativismo Cultural

Apesar da preocupação dos homens com a diversidade nos modos de comportamento entre os diversos povos, tendemos a buscar referenciais que nos coletivize. A singularidade de fatos, pessoas e locais é posta em detrimento pelas generalizações e aproximações etnocêntricas de referenciais externos.

No artigo “Não, ele não era da Al-Qaeda...”, publicado pela revista Carta Capital na edição de abril de 2011, temos de antemão no próprio título o exemplo da aproximação etnocêntrica de referenciais externos. É obvio que Wellington Menezes de Oliveira não era da Al-Qaeda, não era terrorista, não era islâmico nem será protagonista dos filmes de Michael Moore – diretor ciente de seu papel na transformação da sociedade estadunidense e criticamente atuante em seu país.

O artigo ressalta três momentos de proeminente associação do ocorrido na escola municipal brasileira com fatos e hábitos de outros países - principalmente com a nação armamentista EUA: “um crime à moda americana‟ (referindo-se a moda norte-americana), “a lembrança imediata dos massacres em colégios dos Estados Unidos” (esquecendo de toda a problemática brasileira de aumento da violência nas escolas públicas e privadas), “associar o criminoso ao Islã‟ (reforçando o discurso hipócrita que autolegitima os EUA a massacrar o Oriente Médio visando as reservas de petróleo), “ligações com a religião dos mulçumanos” (legitimando o absurdo de que os mulçumanos são inimigos do Ocidente ao associá-los ao terrorismo), e “Michal Moore para completar o ciclo” (este diretor faz um trabalho crítico em favor de repensar a sociedade em que vive e não filmes de apologia a instituições corruptas e ineficientes, tal como o “Tropa de Elite” para enaltecer a decadente polícia carioca). Estas são teorias que centram-se em especificidades de grupos humanos proeminentes e nos impede de pensar quem realmente é Wellington Menezes de Oliveira.

A aproximação com precedentes estadunidenses nos afasta do que singularmente faz este brasileiro se assumir causador de uma tragédia em inúmeras famílias e no imaginário social. O fluxo de informações globais viabiliza que tomemos objetos, aquém de nossa realidade local, como referenciais. É de suma importância pensarmos na essência cultural, social e econômica, o que faz de Wellington Menezes de Oliveira ser o protagonista da tragédia Wellington Menezes de Oliveira (parodiando o livro “O que faz do Brasil, Brasil‟ de Roberto da Matta).

Antes de pertencer ao mundo, enquanto sistema de nações globalizadas, ele é produto e produtor de uma comunidade carioca socialmente singular e pertencente á sociedade brasileira. Não são os traços genéticos ou as diferenças no ambiente físico determinantes das diferenças culturais, nem contribuições plausíveis na reconstrução do que foi se tornando o rapaz de 23 anos, e sim singularidades sociais, economicas e culturais as quais ele esteve submetido.

Traçar paralelos com terroristas ditos islâmicos e com o massacre de Columbine, pouco ou nada contribui para compreendermos o que é ser produto da sociedade brasileira, o que é ser adotado, o que é perder os pais como referencias de vida, o que é ser segregado desde a infância, e inúmeras outras problematizações mais importantes do que reverenciar a nação norte-americana. Postulados do relativismo cultural, enaltecendo as diferenças culturais, auxiliam enormemente na reconstrução deste cidadão tanto tempo mantido á margem da sociedade e agora cultuado como marginal.



Fonte: (livros)

            LARAIA, Roque de Barros. Cultura- um conceito antropológico. 13ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

            Não, ele não era da al-Qaeda. in: revista Carta Capital, 13 de abril de 2011.

            ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é etnocentrismo. 5ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

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