Pensamento Oriental e Ocidental

A filosofia crítica e a psicologia ocidental têm percursos paralelos, e interagem no decorrer do pensamento humano. A filosofia crítica, fundamento primordial da psicologia, não é elemento comum ao Oriente nem a Europa medieval. A psicologia ocidental não porta implicações metafísicas de qualquer ordem, por não provir da razão pura. A filosofia ocidental isolou o espírito em sua própria esfera, distanciando-a da unidade original do universo. Neste contexto, o próprio homem deixou de ser uma centelha da alma do mundo para ser um segmento.

A psicologia trata pretensões e assertivas metafísicas como fenômenos espirituais, por não haver possibilidade de demonstrar validade dos postulados metafísicos. As figuras criadas por nosso espírito, povoando céu e inferno metafísico, são projeções de nós mesmos. A psicologia não pode afirmar nem negar a manifestação do espírito universal, são nossos limites concretizados no bom senso.

O conflito entre ciência e religião (Ocidente e Oriente) constitui-se na concepção de existir um órgão de fé capacitando o homem a conhecer Deus. Na crença religiosa, os crentes sacrificam o intelecto, mas não aos sentimentos, buscando recriar a segurança dos pais quando exercem vigilância. Assim, reproduzem o estado infantil.

O Oriente produziu a metafísica da psicologia. A filosofia da ciência se tornou materialista, considerando a matéria como realidade tangível e cognoscível. A matéria é, em verdade, uma hipótese sob noção metafísica, existindo apenas enquanto símbolo de algo.

As posições metafísicas, conhecimento de fé, inteligência humana, o espírito humano são afirmações de natureza insustentável. O materialismo científico acredita introduzir uma nova hipótese suprema da realidade: Deus, matéria, energia como princípios do ser. Em verdade estava apenas trocando o símbolo. O materialista é um metafísico. O materialismo é uma reação afirmativa de que o conhecimento tem limites que ultrapassam a esfera humana. Os mesmos não percebem que a matéria era apenas outro nome resignificando o princípio supremo da existência.

O conceito atual de espírito designa uma ‘função psíquica’. O ‘espírito’ perdeu seu caráter universal, adquirindo grandeza humanizada, a amplitude universal e metafísica do espírito foi reduzida á consciência individual reflexa, tendendo ao estado infantil, projeções e ilusões.

Ao compreendermos que as idéias universais são princípios espirituais, compreendemos que nossa experiência da realidade é psíquica: o mundo existe na medida em que produzimos sua imagem. Ao recebermos impressões profundas nos tornamos propensos a admitirmos ‘o inconsciente’. A estrutura do espírito é responsável por afirmações sobre objetos metafísicos, bem como o intelecto depende da psique como um todo. O isolamento do homem na própria psique o conduz a critica do conhecimento psicológico já que o intelecto é uma função que depende da psique individual e é determinado por condições subjetivas a influência do ambiente.

“O homem precisa apenas tornar consciência de que está contido na sua própria psique e que nem mesmo em estado de demência poderá ultrapassar estes limites. Também deve reconhecer que a forma de manifestação de seu mundo ou de seus deuses depende, em grande parte, de sua própria constituição espiritual.” (p. 4)

Para a psicologia Ocidental, o espírito é uma função da psique, constitui-se como mentalidade de um indivíduo e condição essencial para o conhecimento, marcando a existência do mundo como representação e idéia. Em realidade psíquica, o ser psíquico é uma categoria que temos conhecimento, pois se apresenta em imagem psíquica. O mundo existe porque assume a forma de realidade psíquica e o pensamento não possui realidade em seu verdadeiro sentido, pois só é admitido por fatos.

O Oriente se baseia na realidade psíquica, sendo a psique condição única e fundamental da existência cuja introversão e extroversão são atitudes temperamentais constitucionais. A condição psicológica determina todos os pensamentos, ações e sentimentos do homem. A introversão destaca-se no Oriente (o homem é a única causa da própria redenção), e a extroversão no Ocidente (o homem depende das graças de Deus, a graça vem de fora). Não se pode ao mesmo tempo ser um bom cristão e seu próprio redentor.

O ponto de vista religioso representa a atitude psicológica com seus preceitos específicos a todas as pessoas. O ocidente é cristão no sentido religioso e psicológico, compreendendo a alma humana e seus complexos de inferioridade. Já o oriente tolera os graus inferiores e os assimila por meio do carma. Em ambos, a vida é promovida pela psique.

Uma atitude honesta não é assimilar especificidades do Oriente, mas com a própria história cristã nos apropriarmos dos valores e a atitudes introvertidas. É fundamental enfatizar que nossas resistências nos fazem por em dúvida a capacidade de auto-libertação da mentalidade introvertida, componente importante do inconsciente.

“[...] termos aprendido alguma coisa com o Oriente no dia em que entendermos que nossa alma possui em si riquezas suficientes que nos dispensam de fecundá-la com elementos tomados de fora, e em que nos sentirmos capazes de desenvolver-nos por nossos próprios meios, com ou sem a graça de Deus[...]” (p. 9)

O termo ‘mind’, mais próximo a expressão Oriental, se aproxima do ocidental ‘inconsciente’. O termo ‘espírito’ se aproxima a nossa consciência reflexa, relação do conteúdo com o eu. Para os ocidentais, a consciência reflexa é indispensável sem um eu no processo de conscientização. O espírito Oriental concebe a consciência sem o eu, a existência se estende para além do eu transcende a consciência. No Oriente, o eu tem papel menos egocêntrico, os estágios com eu debilitado são os mais importantes. Formas superiores de ioga objetivam estado espiritual com o eu praticamente dissolvido. A ioga provoca a identificação do indivíduo com o inconsciente.

“No Oriente o homem interior sempre exerceu sobre o homem exterior um poder de tal natureza que o mundo nunca teve oportunidade de separá-lo de suas raízes profundas. No Ocidente, pelo contrário, o homem exterior sempre esteve de tal modo no primeiro plano, que se alienou de sua essência mais intima. O espírito único, a unidade, a indeterminação e a eternidade se achavam sempre unidas no Deus uno. O homem tornou-se pequeno, um nada, e fundamentalmente sempre num estado de má consciência.” (p.18)

A psique é um sistema consistente e com reações específicas, qualquer nova representação desperta associações na memória que se projeta na não consciência e produz a imagem completa de uma impressão. A psique e sua natureza são reais e agem convertendo objetos materiais em imagens psíquicas.

O conceito ocidental de inconsciente coletivo equivale ao espírito iluminado oriental. No ocidente, o consciente decide contra o inconsciente (tudo que procede do interior do homem é considerado inferior). O processo de função transcendente é a produção de compensações inconscientes favorecendo a confrontação dos opostos. Os conteúdos inconscientes são indeterminados e por isso se misturam com facilidade. A sensação de unidade do conhecimento subliminar universal deriva do inconsciente. A função transcendente nos trona acessível à unidade.

O Ocidente crê na verdade constatada por fatos externos, do contrario será meramente subjetiva. A Igreja, seus ritos e dogmas, dão expressão á psique humana. As compensações inconscientes tornadas conscientes por técnicas analíticas provocam mudança na atitude consciente, formando novo nível de consciência. O processo depende da técnica, resultando inicialmente em conflito (a consciência se opõe a intrusão de conteúdos estranhos). Encontramos nesses esquemas imagens presentes na mitologia e em outras formas arcaicas de pensamento.

“Existe, entretanto, uma forma bastante moderna de psicologia – a psicologia dita analítica ou complexa- segundo a qual há a possibilidade de que, no inconsciente, ocorram determinados processos que compensam, com o seu simbolismo, as deficiências e os desnorteamentos da atitude consciente.” (p. 140)

O espírito gerador de imagens das formas fundamentais á apercepção são exclusivos da psique inconsciente, funcionam como elementos estruturais. As imagens são produzidas pela expressão corrente da linguagem simbólica.

“Pelo fato do inconsciente ser a matriz espiritual, ele traz consigo a marca indelével do criador. É o lugar onde se dá o nascimento das formas do pensamento, como o é também o espírito universal, sob o ponto de vista do nosso texto.” (p. 16)

Por meio do material arcaico nossos antepassados vivem e continuarão a viver, em nós e no mundo.

“Como as formas do inconsciente não estão ligada a nenhuma época determinada e, por isso, parecem eternas, nos causam a impressão singular e única de intemporalidade quando se realizam no plano da consciência.” (p. 16)

Auto-libertação pressupõe compensações inconscientes para solução dos conflitos dolorosos. E quando a cooperação do inconsciente cessa nos ocasiona inconvenientes sérios.

“Parece que a psique ocidental tem um conhecimento intuitivo da dependência do homem em relação a um poder obscuro que deve cooperar para que tudo corra bem. Onde e quando o inconsciente não coopera, o homem se vê embaraçado até mesmo em suas atitudes costumeiras.” (p. 17)

O Oriente subestima o mundo da consciência reflexa (mania de objetividade), o Ocidente subestima o mundo do espírito uno (desprendimento e imobilidade da psique). Ambas as civilizações perdem metade do universo. Ambas afirmam o espírito sobre a matéria usando o espírito consciente.

“Sem unilateralidade, o espírito humano não poderia desenvolver-se em seu caráter diferenciado.”(p. 19)



Livro: JUNG, CG. Comentário sobre o Livro Tibetano da grande libertação in: Psicologia e religião oriental. 5ª edição. Petrópolis: Cultrix, 1991

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